„Nah ist
Und schwer zu fassen der Gott.“
— Hölderlin, (Patmos)
Que é o pensar — e, mais decisivamente ainda, como ele guarda aquilo que lhe é confiado pensar? Ou, formulado de modo ainda mais radical: é possível um pensar que não consuma, não capture, não disponha, mas salvaguarde (bewahren)? A questão toca o destino do Ocidente enquanto destino do pensar, isto é, enquanto modo histórico segundo o qual o pensamento se relaciona — ou falha em se relacionar — com aquilo que lhe é mais próprio: o ser. Pois talvez o traço decisivo do pensamento ocidental não resida apenas no que ele pensou, mas no modo como deixou de guardar, no modo como cessou de aguardar aquilo que se dá apenas no aberto.
Em outros termos, aquilo que se desdobra desde Platão, sob o nome de “filosofia ocidental”, até sua consumação na era técnico-científica, pode ser compreendido como a história de uma única e decisiva determinação: pensar e assegurar o ente (τὸ ὄν, das Seiende) e, precisamente por isso, esquecer o ser (Sein). Não se trata de um simples lapso ou negligência contingente, mas de uma decisão inaugural que marca todo o curso da metafísica. A questão que se impõe, então, não é se pensamos o ser, mas se ainda somos capazes de guardá-lo em sua abertura, de salvaguardá-lo, pensá-lo a partir de si mesmo, e não segundo as categorias do ente.
A filosofia, enquanto metafísica, não fracassou por erro ou insuficiência; ao contrário, ela realizou plenamente aquilo que lhe era próprio. Pensou o ser enquanto presença (Anwesenheit), enquanto fundamento (Grund), enquanto causa originária (ἀρχή), enquanto causa suprema (causa prima), enquanto valor (Wert), enquanto objeto da representação (Vorstellung). Mesmo quando buscou ultrapassar o ente — elevando-se ao Deus da onto-teologia, ao Uno neoplatônico, ao Absoluto idealista ou ao Espírito (Geist) — permaneceu presa à estrutura do ente supremo (ens supremum). O ser nunca foi pensado em sua verdade própria, mas sempre traduzido, reduzido e enquadrado segundo a lógica do ente. É nesse sentido rigoroso que Heidegger pode falar não apenas do Seinsvergessenheit (esquecimento do ser), mas do fim da filosofia (das Ende der Philosophie).
O “fim”, nesse horizonte, não designa decadência cultural nem esgotamento cronológico. Ele nomeia a consumação (Vollendung) da metafísica: o momento em que o pensar se converte integralmente em técnica (Technik), em cálculo (Rechnen), em planejamento (Planen), em asseguramento (Sicherung). A técnica moderna não é o oposto da metafísica: ela é sua realização plena, sua forma operacional e planetária. A moderne Technik é a metafísica tornada automática, funcional, global. Intensificar a reflexão moderna — torná-la mais crítica, mais autoconsciente, mais reflexiva — não rompe com esse destino. A crítica permanece interna ao mesmo horizonte de objetivação.
Por isso, a questão decisiva já não é como “salvar” a filosofia. A técnica é o seu término necessário. A questão que se abre é outra, mais radical: é possível um outro início? (ein anderer Anfang). Trata-se, portanto, não de salvação, mas de renascimento: um renascimento transfigurado. Uma filosofia que não funde, não explique, não domine, mas salvaguarde (bewahren): que não se imponha ao ser, mas guarde (wahren) e zele pelo lugar de sua verdade enquanto ἀλήθεια — des-velamento, des-ocultação, retirada do encobrimento. Eis o ponto nodal: é possível um pensar essencial (wesentliches Denken)?
Para compreender essa possibilidade, é preciso primeiro apreender o traço fundamental do pensamento moderno absolutizado pela técnica. Esse pensamento é essencialmente antecipador. Ele projeta (entwerfen), calcula, prevê, neutraliza o risco. Não se trata aqui de uma disposição psicológica, mas de uma estrutura ontológica: o pensamento técnico não suporta a exposição ao aberto (das Offene). Ele precisa garantir, assegurar, dominar. Por isso, ele fecha. Ele encerra o ente em esquemas de previsibilidade. E exatamente aí reside o ponto decisivo: ele não pensa — apenas calcula (rechnen), apenas dispõe (stellen), apenas organiza o ente enquanto recurso (Bestand).
Todavia, pensar, em seu sentido originário, é o oposto disso. Pensar é tardança (Verspätung). O pensamento chega sempre depois. O mundo não espera o pensamento para aparecer. Ele já se abriu. Já se impôs. Já se deu segundo um modo (Weise), segundo uma tonalidade afetiva (Stimmung), segundo uma cosmovisão (Weltanschauung) enquanto mundo-de-sentidos. Não há mundo-em-si que depois receberia colorações afetivas. O mundo se abre sempre já afinado: a tonalidade é condição do aparecer e da abertura do mundo. A abertura do mundo é sempre uma abertura tonalizada. A Weltanschauung não é um revestimento posterior; é o próprio modo do des-velamento.
Por isso, o pensamento não cria a tonalidade, não cria cosmovisão: ele as encontra. Ele chega tarde demais para instaurá-las. Essa tardança não é uma falha; é a condição do pensamento. O pensamento técnico, porém, recusa essa condição: tenta desesperadamente abolir a tardança. Quer coincidir com o real, capturá-lo, antecipá-lo, fixá-lo, imobilizá-lo para, então, dominá-lo, analisá-lo. Eis o sentido mais profundo do esquecimento do ser: não um erro conceitual, mas a incapacidade de assumir a essência tardia do pensamento.
Mas haveria ainda um outro modo de pensamento — um pensar que não se compreenda como concorrência frente à abertura do mundo, mas como correspondência? Uma nova filosofia que não pretende antecipar, ordenar ou capturar. Falamos estritamente de correspondência (entsprechen), uma vez que o simplório sentido de resposta (antworten) carrega ainda o vestígio de uma reação discursiva, de um contra-movimento lógico, de uma réplica que pressupõe já um enquadramento prévio. Co-responder, todavia, não é replicar, não é meramente resposta, mas ressoar; não é devolver um enunciado, mas entrar em consonância (Zusammenklang), deixar-se afetar pela mesma vibração que atravessa o aparecer do ente enquanto des-velamento (a-létheia) do ser.
Não uma resposta ao ser: responder (antworten) pode significar reagir discursivamente. Trata-se antes de entsprechen: co-responder, ressoar junto, entrar em consonância. O pensamento essencial não responde com conceitos; ele responde com ausculta (Hören): uma escuta que suporta o silêncio (Schweigen), que não se precipita em tradução técnica. Auscultar, aqui, não é mera passividade, mas vigília: atenta, ativa, não inerte, embora silenciosa.
O pensamento essencial, portanto, não responde com conceitos (Begriffe), não intervém por meio de determinação técnico-metafísica. Ele co-responde por meio da ausculta — Hören. Ausculta, aqui, não significa captar informações, mas sustentar o silêncio (Schweigen), permanecer à altura daquilo que ainda não se deu em forma, resistir à compulsão tradutória que tudo converte em disponibilidade (Bestand). Essa ausculta não é passividade amorfa, mas vigília (Wachsamkeit): uma atenção desperta, tensionada, ativa, embora silenciosa — não inerte, mas recolhida.
Nessa ausculta recolhe-se uma afinidade etimológica decisiva, que não é acidental, mas estrutural ao próprio modo de ser do pensamento originário: wahren (guardar), warten (aguardar), Gewahrsein (estar atento, aperceber-se). A raiz germânica war- aponta para o vigiar, o proteger, o manter sob cuidado — mas também para o permanecer desperto diante do que pode advir. Pensar, nesse horizonte, é guardar. E guardar é sempre, ao mesmo tempo, a-guardar. Desse modo, o pensamento essencial não domina, não legisla, não assegura fundamentos, mas salva-guarda (be-wahren), e ao guardar (wahren), a-guarda (warten).
O pensamento essencial a-guarda, uma vez que guardar, aqui, não significa conservar algo fixo, cristalizado, objetificado. Eis o pensamento essencial: a espera atenta e tensionada pelo ser, pela sua irrupção (Aufbruch), pelo que quer que possa advir de sua abertura (Öffnung), de seu des-velamento — ἀ-λήθεια, onde o prefixo privativo (a-) não nega, mas suspende o ocultamento (λήθη), permitindo que algo venha à presença. Guardar é, portanto, manter aberta a clareira do ser (Lichtung des Seins) — ou, mais radicalmente, expor-se à abertura do ser (Offenheit des Seins).
Há, contudo, ainda um outro sentido — mais recôndito e mais decisivo — que se deixa entrever em toda essa dinâmica etimológica. Pois que significa, afinal, aguardar? Aguardar não é simplesmente esperar algo já delineado, fixo, cristalizado, tampouco manter a atenção sobre um conteúdo que, embora incompleto, já subsistiria à margem da manifestação. Aguardar é, antes, zelar (wahren) por aquilo que ainda não se revelou plenamente, por aquilo que ainda não se deu em figura (Gestalt), em forma, nem sequer em esboço determinável. Todavia, o a-guardar próprio do pensamento essencial é ainda mais originário, mais especial. Ele não se dirige a algo que, de algum modo, precederia a forma como um conteúdo informe à espera de moldagem. Não se trata de atentar para um “antes” cronológico da forma, nem de buscar uma forma suprema (μορφή ὑπέρτατη) que serviria de arquétipo às demais. Trata-se, antes, de manter-se atento — tensionado, vigilante (gewahr, wach) — à força mesma que abre a forma, ao ímpeto originário que faz com que algo venha a figurar-se.
Esse a-guardar não olha para uma forma antes da forma, mas ausculta o próprio movimento de irrupção (Aufbruch), de abertura (Öffnung), de des-velamento (ἀ-λήθεια) no qual toda forma, enquanto forma, advém. Ele não tematiza o resultado, mas sustenta o acontecimento; não fixa o ente, mas permanece exposto ao evento (Ereignis) de sua aparição. Pensar, aqui, não é representar (vor-stellen), mas deixar-aparecer (erscheinen lassen), manter-se junto ao brotar (φύσις, no sentido originário de phýein: emergir, crescer, desabrochar).
Desse modo, o pensamento essencial habita não o domínio das formas dadas, mas o campo da onto-fania — o aparecer do ser enquanto tal. Onto-phanía: de ὄν (ente, ser) e φαίνεσθαι (mostrar-se, vir à luz). Não o ser enquanto conceito, mas o ser enquanto aquilo que se mostra ao mostrar-se, enquanto evento de manifestação e abertura. Habitar esse campo é sustentar a proximidade do mistério, permanecer na clareira onde o ser acontece sem garantia, sem cálculo, sem posse — apenas sob a guarda vigilante de um pensamento que sabe aguardar.
Habitar — wohnen — não designa, aqui, um simples estar-em, nem a ocupação funcional de um espaço delimitado. Habitar é o modo segundo o qual o humano se mantém na proximidade do ser. A palavra wohnen remete ao antigo alto-alemão wonen, wonên: permanecer, deter-se, demorar-se em paz; aparentada a Wonne, júbilo sereno, quietude que não se opõe à tensão, mas a suporta. Habitar é, portanto, uma permanência recolhida — não um repouso imóvel, mas um deter-se que acolhe o movimento do que advém. Habitar o campo da onto-fania significa manter-se nesse entre — entre a ocultação e o desvelamento, entre o silêncio e o dizer, entre a terra que se fecha e o céu que se abre. Não se trata de possuir a clareira, mas de deixar-se abrigar por ela.
Nesse sentido, resgata-se o pensamento em sua marca mais arcaica e original: enquanto co-respondência. Não como produção de sentido, mas como acolhimento do sentido que acontece. E que mais seria tal pensamento senão poiético? Não poiético no sentido moderno de fabricação (Herstellung), de causalidade eficiente, de imposição formal, mas no sentido originário de ποίησις: deixar-vir-à-presença, permitir que algo emerja a partir de si mesmo. Poiein não é fazer no sentido técnico, mas conduzir algo do velamento à presença, do não-aparecer ao aparecer — sempre em fidelidade àquilo que se doa. Nesse horizonte, o vigia da ausculta é precisamente o poeta. O poeta não fabrica significações, não impõe mundos; ele vela (wahrt) pela abertura, suporta o silêncio, mantém-se exposto à chegada do ser. O dizer poético é um dizer que guarda — e, ao guardar, aguarda.
„Das Denken bringt nichts hervor.
Es läßt sich vom Sein angehen.“
— Martin Heidegger (GA 7)
Este é o novo início — der andere Anfang: não um começo cronológico, nem um programa histórico, mas uma outra postura diante do ser: mais humilde, mais exposta, mais silenciosa. Não se trata de pensar mais, nem melhor, nem mais profundamente no sentido habitual e técnico. Talvez o chamado seja, na verdade, para pensar menos, no sentido de cessar a voracidade conceitual; para dizer menos, no sentido de deixar falar o silêncio; para agir menos, no sentido de não violentar, através da Technik, o aparecer. Pensar tornar-se-ia, assim, uma forma de ausculta, uma ética da demora. Nesse ponto, pensar e poetar já não se distinguem. Ambos guardam. Ambos aguardam. Ambos salvaguardam o espaço onde o ser pode, talvez, uma vez mais, acontecer.





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