O sangue, na constelação moderna, foi arrancado de sua dimensão ontológica e reduzido à positividade do ente. Submetido à Technik, inscrito no regime da mensurabilidade, tornou-se objeto da hematologia, matéria analisável, fluido biológico funcionalizado. Nesse enquadramento, o Blut (sangue) comparece apenas como componente orgânico, passível de isolamento, armazenamento, transfusão, descarte. Ele é integrado ao domínio do Bestand, isto é, à ordem da disponibilidade técnica. O sangue já não acontece; ele circula mecanicamente.
Essa redução, contudo, não é meramente científica; ela é ontológica: trata-se d’uma redução do horizonte ontológico. Ela pressupõe que o real se deixe esgotar enquanto objeto e que o ser (Sein) coincida com o ente (seiende). O sangue, assim capturado, perde sua poiésis — deixa de ser força manifestante (hervorbringende Kraft) e passa a ser coisa — fixa, solidificada, estável. O que se perde não é apenas um símbolo arcaico, mas a própria experiência do Werden enquanto fluxo originário do ser.
Para o mundo antigo — e, mais radicalmente, para o horizonte dionisíaco — o sangue não era propriedade do corpo individual, nem atributo exclusivo do homem, da fera ou do animal imolado. Ele nomeava, antes de tudo, a liquidez primordial da vida (ursprüngliche Flüssigkeit), a condição ainda não solidificada das forças, anterior à forma, anterior à identidade. O sangue não pertencia ao corpo; na verdade, o corpo emergia como coagulação provisória do sangue. Não havia “meu” sangue, mas um mesmo fluxo vital atravessando indistintamente homens, animais, plantas, deuses e terra.
Nesse sentido, o Blut designava a própria continuidade ontológica entre homem e mundo. Ele era o índice sensível da ausência de fronteiras estáveis, o testemunho de que a vida não se deixa circunscrever por identidades fixas. O sangue expressava aquilo que Heráclito nomeia como pólemos — tensão originária, conflito fecundo, fluxo incessante no qual tudo advém e perece: πάντα ῥεῖ.
O dionisíaco emerge precisamente nesse ponto. Dioniso não é figura mitológica decorativa, mas nome do acontecimento no qual o princípio de individuação (principium individuationis) se rompe. Em Die Geburt der Tragödie, Nietzsche afirma que, sob o êxtase dionisíaco, “der Mensch ist nicht mehr Künstler, er ist Kunstwerk” — o homem deixa de ser sujeito que age e torna-se ele próprio expressão do fluxo criador. O sangue, aqui, não sustenta a identidade; ele a dissolve. Ele não confirma o eu; ele o liquefaz.
O que a modernidade chama de “eu” — unidade psíquica, centro de decisões, identidade contínua — pode ser compreendido, nesse horizonte, como sangue coagulado (geronnenes Blut). O eu é a solidificação do fluxo, a fixação daquilo que, em sua origem, é movimento. Ele é o resultado de um processo de contenção, de arrefecimento da intensidade. Onde o sangue era flüssig, torna-se fest; onde havia devir, instaura-se permanência ilusória. A identidade é sempre um efeito de coagulação.
Essa coagulação não é apenas biológica, mas ontológica. O eu fixo é a forma endurecida do Werden, o traço estável imposto ao que é verdadeiramente instável. Ele corresponde à domesticação das forças, à sua captura pela forma, à sua inscrição num regime de previsibilidade. O sujeito moderno é, nesse sentido, um produto tardio do esquecimento do sangue enquanto fluxo, análogo ao “esquecimento do ser” apontado por Heidegger.
Schopenhauer já indicava esse movimento ao conceber a Wille como força cega, anterior à representação (vor aller Vorstellung), manifestando-se nos organismos apenas de maneira secundária. O corpo, para ele, é objetivação da vontade (Objektivation des Willens), não sua origem. O sangue, enquanto expressão da vontade em estado ainda não fixado, guarda essa precedência ontológica. Ele é mais antigo que o órgão, mais profundo que a forma, mais verdadeiro que a identidade.
Nietzsche radicaliza esse gesto ao pensar a Wille zur Macht não como vontade subjetiva, mas como dinâmica imanente das forças. A vontade de potência não quer algo; ela quer mais potência: quer excesso, afirmar-se. Ela não se orienta por fins; ela transborda. O sangue dionisíaco é sua figura concreta: intensidade, afirmação sem fundamento. Ele pertence ao domínio do Überfluss, não da conservação.
O sangue, enquanto fluxo dionisíaco, pertence à economia geral (économie générale), não à economia restrita da utilidade. Ele é dépense, como diria Bataille, gasto improdutivo, desperdício soberano. Por essa razão, derramar sangue — no sacrifício, na guerra, na festa, na orgia — não era, para o antigo, uma perda, mas comunicação com o excesso do real. Era afirmação da soberania da vida em fluxo sobre toda forma que tenta aprisioná-la.
Para a técnica moderna, ao contrário, cuja economia restrita é levada ao extremo, nada deve escapar, nada deve transbordar. O sangue deve permanecer contido, funcional, circulante dentro do sistema. Derramá-lo é falha técnica, risco, erro. O dionisíaco é neutralizado; o trágico é higienizado. O sangue já não marca o limiar entre homem e deus, mas o limite da patologia.
Nesse regime, o eu coagulado torna-se norma. A identidade fixa é celebrada como saúde, estabilidade, normalidade. O fluxo é suspeito; a dissolução, temida. O homem passa a conceber-se como sujeito que possui um corpo, e não como acontecimento corporal. Ele se pensa como consciência que governa impulsos, e não como campo pulsional (pulsionelles Feld), como diria Klossowski. O sangue é interiorizado, silenciado, esquecido, coagulado.
Retomar o sangue, portanto, não é um gesto simbólico superficial, nem uma exaltação romântica da carne. É uma decisão ontológica: reabrir o eu à sua própria liquidez originária (ursprüngliche Flüssigkeit), dissolver a rigidez da identidade, reconduzir o homem ao fluxo impessoal que o constitui. Não se trata de abolir a forma, mas de reconhecê-la como provisória, como coagulação transitória do devir (Werden) do sangue.
Por fim, o homem não é um eu que tem sangue. Ele é um acontecimento sanguíneo temporariamente coagulado. Onde o sangue volta a fluir — onde a identidade se expõe ao risco da dissolução — o ser volta a acontecer. Dioniso retorna não como mito, mas como verdade do Werden. Pensar a partir do sangue é pensar a partir do abismo (Ab-grund) do ser. É recusar o conforto da fixidez e afirmar a instabilidade como condição. É reconhecer que toda identidade é tardia, toda forma é frágil. Onde o sangue se liquefaz, o mundo volta a dançar.





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